22 fevereiro 2012

Psicologia Cristã, Marisa Lobo e a Psicoterapia para Homossexualidade




A psicologa cristã Marisa Lobo

Há alguns meses me perguntaram via twitter (@AlessandroVRo que eu achava do trabalho de uma psicologa chamada Marisa Lobo. Confessei nunca ter ouvido falar e ela me foi apresentada pela seguinte descrição: “Ela usa da Psicologia Cristã e fala da cura de homossexuais”. Outro comentário me chamou a atenção: “Ela é uma versão feminina do pastor Silas Malafaia, que também é psicologo”. Curioso, fui checar do que se trata.

O conteúdo deste post é o resultado das minhas investigações sobre a obra de Marisa Lobo. No texto tratarei das bases teórico-metodológicas da chamada “Psicologia Cristã” e discutirei suas práticas, em especial quanto a ética e eficácia técnica da terapia para “cura da homossexualidade”. Nas considerações finais faço um alerta à comunidade científica relacionada à Psicologia no Brasil quanto à consolidação, por estas bandas, de uma nova modalidade de “Terapia Alternativa”.




Existe uma Psicologia Cristã?

Fiquei intrigado com a tal da Psicologia Cristã. Na minha graduação em Psicologia na UFSC cheguei a conhecer um grupo de cristãos evangélicos praticantes que se reunia uma vez por mês, numa espécie de sessão de terapia, para falar como manter a fé religiosa deles apesar do que aprendiam no curso de Psicologia. Através deles soube que nos EUA havia uma imensa demanda por aconselhamento pastoral, que pode ser descrito uma aplicação das práticas de Counseling em ambientes religiosos (especialmente igrejas evangélicas).

Tanto é que há naquele país pregadores famosos que falam a partir da Psicologia, como Roger Hurding, autor de “A Árvore da Cura” (Vida Nova,1995), que se trata de um manual de psicoterapia adaptada aos preceitos cristãos. O que muitas pessoas chamam de Psicologia Cristã não é um campo de conhecimentos distinto, bem delimitado, mas um conjunto difuso de aplicações dos conhecimentos da Psicologia em ambientes cristãos, filtrados por preceitos morais de uma comunidade específica.

Aliás o Brasil, sendo um país cada vez mais evangélico neopentecostal, possui uma grande e crescente demanda por serviços de psicoterapia e aconselhamento por e para membros de comunidades evangélicas. A psicologa cristã Marisa Lobo não é a única nesse mercado: é apenas a mais famosa, atualmente. E como veremos no final deste artigo, uma espécie de pioneira que tem tudo para ser amplamente imitada !



Psicoterapia para Curar Homossexualidade?

Quando lidamos com a colisão dessa assim chamada Psicologia Cristã (me parece que o mais correto seria falar em psicologos cristãos), com movimentos sociais GLBT há uma série de assuntos que emerge rapidamente: a patologização, etiologia, tratamento e cura da homossexualidade. Colidem não apenas porque as relações entre mesmo sexo são tradadas ao mesmo tempo como psicopatologia e pecado espiritual, mas porque a instituição Igreja entra em confronto com a instituição Conselho Federal de Psicologia, cujas normativas profissionais estipulam que práticas homossexuais não são patológicas em si mesmas, não sendo cabível ao psicoterapeuta filiado ao Conselho igualar homossexualidade a um transtorno psicológico.

Vejamos como se dá esse assunto, parte por parte, pelos assim chamados aqui “psicologos cristãos”:

a) O interesse afetivo e sexual por pessoas do mesmo sexo é tratado como patologia por conta de preceitos bíblicos tais como este:


E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. (Romanos 1:26-27)

Comportamentos homossexuais não são analisados contextualmente, mas taxados de anti-naturais e perversos em si mesmos. São entendidos como essencialmente pervertidos, e neste caso não se usa a
perversão do linguajar psicanalítico, mas do bíblico,que equivale a diabólico.

b) A etiologia, que se trata do estudo das origens de uma doença, da homossexualidade costuma ser atribuída a famílias desestruturadas ou episódios traumáticos na infância, quando se trata de igrejas mais tradicionais, e a opressão espiritual demoníaca, em igrejas neopentecostais;

c) O tratamento costuma variar. Há desde campos e colégios internos onde o indivídio homossexual é isolado para ser ressociabilizado como hetero, passando por aconselhamento pastoral, até formas mais intensivas como a Reversion Therapy (Tratamentos bastante aversivos, que por vezes fazem uso de injeções de hormônios e até mesmo castração química);

d) Quanto a cura, partindo-se da ideia cristã da patologia (espiritual ou social), fala-se da conquista de duas possibilidades: o homossexual abandonar os hábitos que o prendiam nessa condição, adquirindo outros e tornando-se, presumivelmente, hetero por completo; o homossexual viver em celibato, tornando-se socialmente assexuado (modelo mais encontrado entre católicos tradicionais, mesmo entre seus sacerdotes com atração pelo mesmo sexo).




Ética e Eficácia da “Conversão” para a Heterossexualidade


O problema com a ideia da “cura” é que essa parte da premissa que a homossexualidade é um transtorno psiquiátrico, ou algum tipo de doença passível de ser isolada e tratada. O interesse sexual e afetivo por pessoas do mesmo sexo deixou de ser considerado patológico pela Medicina nos anos 1970. Em paralelo, pesquisas como a de Fritz Klein mostraram que a sexualidade não se reduz a sentir atração física, mas envolve afinidades afetivas, fantasias, hábitos sociais, estilo de vida, etc, e que todos esses atributos são passíveis de constantes mudanças, adaptações. Ou seja, a sexualidade não é um item fácil de isolar, manipular e modificar, dada sua complexidade. Contudo, mudanças são possíveis e costumam ocorrer de forma espontânea. Em determinadas circunstâncias ou fases da vida desejos comportamentos homossexuais podem ganhar força em pessoas que se dizem heteros. O inverso também é válido, isto é, pessoas que se julgam homossexuais serem surpreendidas por impetos heterossexuais.

O que as “terapias de conversão”, quase sempre promovidas por grupos religiosos, parecem conseguir em termos de “sucesso” é modificar aspectos públicos da sexualidade, como hábitos de vestir, identidade social, estilo de vida e afins, e incentivar o surgimento de fantasias, desejos e preferências emocionais por pessoas do sexo oposto Isso, contudo, não parece eliminar completamente comportamentos relativos a homossexualidade (como sentir-se especialmente conectado afetiva e sexualmente a pessoas do mesmo sexo, ou vez por outras ter fantasias homoeróticas ou românticas com o mesmo sexo).

Sobre a efetividade da suposta “cura da homossexualidade”, vale a pena checar o célebre caso Kirk Murphy. Tratado pelo até hoje celebrado psicologo cristão Dr. Rekers, que garantiu que o processo foi um grande sucesso, o rapaz nunca teve uma vida normal, segundo a própria família, vindo a se tornar um homem ansioso, inseguro e solitário. Kirk cometeu suicídio aos 38 anos. Para conhecer mais do caso, clique aqui.




A Psicologia Cristã de Marisa Lobo

Depois das considerações iniciais sobre a Psicologia Cristã e sobre o tratamento para homossexualidade promovido por essa, que nem chega a ser uma área da Psicologia propriamente falarei agora sobre um exemplar específico dessa tendência. Falarei da Psicologia Cristã de Marisa Lobo, uma já famosa psicologa tida por alguns como uma versão feminina do Pastor Silas Malafaia. Para isso consultei o site dela (http://www.psicologiacrista.com.br/), bem com diversos de seus artigos, notícias sobre a profissional, entrevistas.

Originalmente Marisa Lobo parece ter feito carreira com o tratamento de drogadíctos, ajudando-os a superar a mortal dependência de substâncias. Por esse trabalho ela foi bastante reconhecida e prestigiada por políticos, religiosos e outros líderes comunitários. Aliás, a psicologa continua lidando com essa área, inclusive fazendo palestras regularmente em universidades sobre seu trabalho ajudando drogadictos. Sinceramente, essa parte do trabalho de Marisa Lobo até merece um elogio meu.

O que ocorre é que, em seguida começou a falar cada vez mais contra as práticas homossexuais e, num certo sentido, a tratá-los de forma equivalente a dependentes químicos: pessoas que precisam se libertar de maus hábitos e ser reinseridos na sociedade, em condições normais. Se bem que a própria Marisa Lobo afirma não fazer tratamento de homossexualidade em seu consultório, apesar dela mesma repetir que são casos patológicos que precisam de cura.







UPDATE (2/MAR/2012)

Note o que Marisa Lobo diz:

" Se Quisermos alcançar a comunidade gay parar Jesus, devemos seguir seu exemplo, Jesus deixava claro o que ele não concordava com certos comportamentos porém tratava com tolerância e amor, não deixava de pregar, de dizer a verdade, entretanto expressava sua graça através da verdade da conversão e do que nos espera no reino espiritual,qual será nosso galardão na eternidade. Deus se relacionava com aqueles que não o conheciam ou estavam perdidos em suas transgressões"




fonte: aqui.

Notaram?

Ela parece sugerir, implicitamente:
a) que Jesus não concorda com os comportamentos homossexuais
b) que esses indivíduos devem se arrepender e buscar a
conversão. Mas ora, e esses homossexuais já forem cristãos praticantes? O que parece é que a tal "conversão" não é para entrar no cristianismo, mas para sair da homossexualidade.





Já em outro texto Marisa Lobo diz:


"Tratamento existe? Sim.
Uma questão importante que gostaria de salientar é sobre o tratamento, somos como psicólogos, “proibidos” sob ameaça de perdermos o CRP (registro de atuação do psicólogo) se tratarmos o homossexual que querem tratamento, ora bolas!!!"


(fonte: site "Psicologia Cristã"; Notícias;
 Discussão sobre lei que criminaliza pastores e padres)

Para mim parece claro que ela acredita no "tratamento para homossexualidade", o que equipara essa condição a uma  patologia (o que mais precisa ser "tratado" em terapia?).







Depois de ler os textos presentes no site da psicologa, o que mais me chamou a atenção inicialmente foi o que eu não encontrei lá. Eis minhas expectativas frustradas:
- Não há referências detalhadas a pesquisas científicas atuais sobre homossexualidade. Nem a favor e nem contra, ou mesmo neutra. Em uma de suas entrevistas Marisa faz breve menção a pesquisas, mas sem revelar quais são, suas referências, etc. Ela apenas diz vagamente: “Pesquisas dizem que...”, mas não costuma revelar quais pesquisas, feitas por quem, em que contexto, etc; 
- Não há teorias filosóficas e/ou científicas sobre a personalidade, a motivação, a aprendizagem, os processos psíquicos, cognitivos, o comportamento, etc. Apesar desses assuntos serem pincelados, nenhuma explicação de como funcionam esses importantes princípios de toda Psicologia é exposta (O que deixa o site inteiro com um jeitão inconfundível de folk psychology);
- Não há materiais de outros psicologos cristãos, como as sumidades dos EUA que também pregam os mesmos temas. Tudo parece ser pensado e escrito tão somente pela própria Marisa Lobo; 
- Marisa se apresenta como psicologa, mas não expõe seu número de registro no Conselho Regional de Psicologia. Presumo que pelas desavenças severas que ela tem com essa instituição, mas em todo caso o título profissional de psicologa está indelevelmente ligado a esse registro institucional;


Falemos agora do conteúdo do site dela...



Base Teórica

Em todo o site, encontrei apenas 3 referências a teóricos da Psicologia. Todas de psicanalistas: duas de Freud e uma de Melaine Klein. Referências à bíblia são inúmeras. Marisa Lobo faz uma Psicologia Cristã que pode ser descrita como um caldeirão de pregação cristã onde vão algumas pitadinhas de psicanálise. As próprias citações de Freud e Klein não são literais, mas paráfrases vagas, do tipo “Freud certa vez disse mais ou menos assim...” (sem revelar em que livro está dito isso, e sem levar em conta desdobramentos do autor e seus seguidores sobre o assunto).

Todos os textos de Marisa Lobo deixam absolutamente claro que a base de sua Psicologia Cristã é mesmo a bíblia, e não produção clássica ou atual da Psicologia. Uma certa mistura de bases teóricas parece ocorrer em seu artigo
“Síndrome de Pinóquio”, onde a psicologa oferece uma explicação que me soou bastante Comportamental ao hábito da mentira na criança (Misturando com preceitos bíblicos de como resolver o problema). Ou seja, de um lado Marisa cita Freud, por outro, aplica Skinner (de uma forma que me lembrou a Supernanny Cris Poli, que aliás também é uma cristã no mundo da Psicologia, se bem que esta não afirma fazer "Psicologia Cristã".


Método

Não há muita descrição do método de Marisa Lobo para tratar homossexuais disponível na internet. Só ficamos sabendo que ela especialização em Sexualidade, Dependência Química, Psicoterapia Breve e escreveu livros sobre educação infantil. Presume-se que o método de Marisa Lobo para tratamento de homossexualidade seja do tipo mais brando: sessões de aconselhamento. Também não ficamos sabendo ao certo se ela trata, pessoalmente, homossexuais ou apenas os encaminha para ser tratados em comunidades locais. Ela, contudo, afirma que não os trata pessoalmente, ao menos não no consultório.

Em seu site, Marisa cita como referência o
“Método dos 12 Passos”, do Alcoolatras Anômicos. Isso reforça a sugestão dita anteriromente de que a psicologa equipara homossexuais a drogadíctos. Esse método, contudo, pouco tem de Ciência e mesmo de Psicologia, uma vez que fundamenta-se em entregar o problema nas mãos de um deus pessoal. Autores como B. F. Skinner chegaram a escrever substitutos para os 12 passos. A tese principal de Marisa Lobo é que a sexualidade é escolha fruto do livre-arbítrio (que aliás, é um conceito teológico cristão e não científico). Por mais que vários determinantes nos levem a determinado desejo, a vivência da sexualidade no presente seria uma escolha pessoal, interior e completamente livre de cada um. Em algumas passagens ela diz  que um homossexual pode escolher se tornar hetero. Mas em outras ela sugere que os não-heteros podem ou devem escolher abdicar da sexualidade, “sublimando” (termo psicanalítico) seus desejos através da fé em Jesus para que essa energia psíquica se converta em força para o trabalho, pra religião, pras artes, etc  Ou seja, tornando-se pessoas assexuais.


Analisando a Obra de Marisa Lobo


Falando mais propriamente dos textos de Marisa Lobo, me chamou a atenção o estilo de intensa pregação religiosa. Com o título “Psicologia Pastoral”  há um link em seu site que leva a diversos textos que são pura pregação bíblica. O próprio termo “psicologia pastoral” me pareceu um enigma.

Mesmo na sessão de Artigos, onde eu esperava encontrar publicações em Congressos e Revistas de Psicologia (até onde soube, pelo twitter dela, Marisa Lobo praticamente só vai em eventos evangélicos e publica em revistas cristãs), achei apenas ensaios repletos apenas de citações da bíblia. Em um deles, Marisa chama Jesus de
“o divino psicologo”. Em outro artigo, “A procura da verdade no processo terapêutico”, onde ela faz as únicas referências explícitas à Psicanálise no site, a conclusão parece associar a verdade curadora no processo terapêutico com a aceitação de Jesus como Senhor.

Além da crônica falta de referências e de argumentos que não sejam bíblicos, e do estilo de intensa pregação, seus textos parecem, ao menos para mim, um tanto confusos.
Em diversos passagens vemos contradições lógicas. P.e., em um artigo sobre como a Igreja deve tratar homossexuais ela diz que Jesus não tolera quem não enxerga seus proprios erros, para em seguida, poucas linhas depois, dizer que Jesus tolera e ama a todos.

Claro que sempre é possível fazer diversas interpretações de um texto mas as contradições e confusões persistem em diversos de seus escritos Especialmente no link “Psicologia Pastoral”, de onde destaco um trecho: 

A desgraça não acha, nem dá tempo para a graça. Isto é muito sem graça. Na verdade, não é possível achar graça na desgraça. Só os criadores da desgraça acham graça na desgraça”. 

De fato, depois de ler Marisa Lobo é comum ficar com a impressão que diversos de seus textos deveriam ter passado por um revisor ortográfico e uma releitura seguida de edição.



Um texto de Marisa Lobo comentado

Resolvi analisar detalhadamente um texto de Marisa Lobo para expressar melhor o que quero dizer aqui sobre a qualidade da sua “Psicologia Cristã”. O objeto de estudo é um comentário que ela fez sobre a adoção crianças por um casais de mesmo sexo. Para ler o texto, publicado por um portal evangélico, clique aqui.

Antes de mais nada, algumas considerações estilísticas. São 638 palavras escritas em um único parágrafo, com sentenças de uma sintaxe confusa até por conta de uma pontuação falha. Isso sem falar nos erros de ortografia. A primeira frase do texto já possui um erro crasso de português: Fico muito preocupada com crianças adotadas em idades inferiores 6 anos...”

Fora esses problemas estruturais o texto é todo cheio de raciocínios estranhos. Por exemplo, o que ela quis dizer com “os pais podem induzir na criança um comportamento homossexual sem que necessariamente a criança seja  por estímulo oferecido causando assim  um sofrimento grande em sua alma  no futuro” (???). Para mim há uma falha que nem chega a ser teórica, mas simplesmente lógica, na construção da sentença.

Deixemos de lado esses aspectos sintáticos e falemos de semântica. O que significa esse texto de Marisa Lobo? Em resumo, ela diz que a criança poderá ser induzida a se tornar homossexual por pais homossexuais, e que isso lhe fará sofrer, pois o destino de homossexuais é sofrer (Sofrimento do qual ela seria poupada se tivesse pais heteros). Nota importante: me parece que a maior parte do sofrimento dos homossexuais não é intrínseco a sua sexualidade, mas decorrente de um ambiente social homofóbico e muito coercitivo. Esse detalhe, o da determinação social do sofrimento do homossexual, Marisa Lobo não explana.

Para sustentar a tese de que filhos adotivos de homossexuais se tornarão homossexuais Marisa Lobo cita um pouco de Psicanálise: o complexo de édipo ainda está em desenvolvimento até os 6 anos, idade em que “o sistema nervoso central ainda está em formação” (???), e que a “realidade psíquica” bem formada demanda necessariamente um pai e uma mãe. Não sou psicanalista, mas me parece que formulações mais recentes e muito mais difundidas da Psicanálise, como a Lacaniana, superaram essa visão freudiana ortodoxa. Por outro lado há sim pesquisas não-psicaníliticas sobre o bem-estar de crianças adotadas por homossexuais. Pesquisas que Marisa Lobo parece ignorar (Se bem que ela nunca faz referências explíticas a pesquisas), e falam até do fato de que pais homossexuais, sejam gays ou lésbicas, tendem a ser mais atenciosos e dedicados aos filhos, uma vez que adoção tem um custo social tão grande que apenas os que realmente queriam ser pais conseguem o feito.





A Defesa de Marisa Lobo

Dia 9/FEV/2012 Marisa Lobo foi convocada a se apresentar ao Conselho de Psicologia e prestar esclarecimentos sobre a acusação de que vende religião disfarçada de Psicologia. A própria Marisa Lobo comenta como foi o episódio neste link aqui. A base de sua defesa é que está apenas professando sua fé, sendo seu direito legal. Marisa Lobo alega que o Conselho exigiu que ela escolhesse entre sua religião e sua carreira como psicóloga (Me parece improvável que alguém tenha pedido para ela “negar a Jesus”, contudo).

Marisa Lobo não está apenas professando sua fé, como diz. Está fazendo uso de seu titulo de psicóloga para isso, ao ponto de defender que o que faz é “Psicologia Cristã”. Em outras palavras, disfarça uma ideologia religiosa de discurso científico. Esse é o ponto central da crítica (que ela entende como perseguição religiosa), à sua postura profissional. E mediante as regras (que Marisa Lobo conhece muito bem) do Código de Ética da profissão, fazer propaganda de si mesmo como “psicólogo cristão” é tão anti-ético quanto declarar-se “psicólogo Ptista”, “psicólogo kardecista”, “psicólogo Liberal”, etc. Em resumo: a Psicologia não pode ser usada para legitimar e pretensamente endossar ideologias políticas, religiosas, filosóficas de seu profissional.





Considerações Finais

Como já pontuado anteriormente, vivemos hoje no Brasil um crescimento assombroso do cristianismo evangélico, em especial do neopentecostal. Nesse contexto, surge um mercado consumidor para um novo tipo de terapia alternativa, ao lado de tantas outras já existentes e igualmente não reconhecida oficialmente por órgãos como o Conselho de Psicologia e o de Medicina: a psicoterapia cristã (cujo carro-chefe, atualmente, é a propaganda da pretensa “cura da homossexualidade”).

Como toda terapia alternativa, ao lado dos Florais de Bach, do Reiki, da Astrologia Clínica, etc, a Psicoterapia Cristã faz um pastiche teórico-metodológico da Psicologia com alguma espiritualidade mística e/ou religiosa. Como terapia alternativa explora o efeito placebo originário da fé do paciente. Pouquíssimo ou nada se baseia em Ciência. Seu diferencial diante das outras terapias alternativas é que a fé que neste caso é religiosa, reforçada por um aparato social poderoso (uma determinada comunidade cristã), e não uma fé mística individual (como é a das pessoas que creem em Reiki ou cura por cristais).

Por conta desse mercado crescente, deduzo que será cada vez mais comum a presença de líderes religiosos em cursos de formação em psicoterapias breves, bem como a criação de cursos especializados para membros da comunidade evangélica (como os já muito comuns, nos EUA, cursos de “aconselhamento pastoral”).

Eis aí um novo agente surgindo no cenário da Psicologia Brasileira, caros psicologos e clientes de Psicologia. Em um Brasil que cada vez mais tem como grandes líderes pastores como Silas Malafaia (que também é psicologo, notem!), Edir Macedo, Marco Feliciano e Valdemiro Soares, cada vez mais surgirá demanda por e oferta de psicologos cristãos. 


Marisa Lobo não é a primeira de seu tipo, mas é o protótipo e modelo teórico, metodológico e prático para muitos e muitas que estão por vir.


21 comentários:

Hatarashe disse...

ok que sou suspeito pra falar, mas achei os "ideais" dessa mulher totalmente repugnantes! um dos principais motivos de eu ser contra religiões é que as mais difundidas têm coerção embutida em suas bases, e ainda tem psicólogo que segue isso???

me pergunto se isso não irá denegrir ainda mais a imagem da nossa profissão (que já não tem lá uma imagem muito boa).
espero que o Conselho tome as providências necessárias; não pode haver passividade perante algo sério assim.

Vinícius Rodrigues disse...

Alessandro,este texto não seria publicado no bulevoador? não o vi por lá.

Andre Ferreira disse...

Me preocupa muito esse novo cenário que esta surgindo, pois como fica os psicólogos que seguem a risca as condutas éticas engendradas pelo conselho?
Certa vez, lendo um dos textos do Marcelo Codo, ele fala claramente que é muito fácil existir profissionais charlatães no nosso ramo, pois a psicologia ainda encontra-se atrás das trincheiras, e a grande massa pouco ou nada conhece do que é realmente o ser psicólogo. Assim, o mercado se abre pra pessoas com atuações calcadas em princípios ideológicos e nada científicos. A questão é, o que podemos fazer para mudar este cenário? Uma das coisas que me passa pela cabeça, é começar realmente a buscar alternativas de propagar o conhecimento da psicologia ao grande público.

Tiago, B. Camboriú disse...

Por enquanto, a melhor análise acerca do "trabalho" de Marisa Lobo encontrado na web. Parabéns cara!

sortilegiu disse...

E vai ficando cada vez mais claro que estão tentando tornar o Brasil um país teocrático como são os EUA, na política e nas ciências aparece gente de todos os lados defendendo que tudo deve ser "cristão". O problema não é ser "cristão" o problema é o q pode vir disso, dadas as várias interpretações que existe e que podem existir para esse termo. Quando menos percebermos, já estaremos num caminho sem volta.

Carla Santos disse...

Parabéns pela matéria. Entendo que a sra. Marisa Lobo queira "ajudar" os homossexuais, que na sua visão precisam se tornar heteros para serem felizes e viverem de acordo com os ensinamentos que sua crença professa, porém daí a utilizar sua profissão de Psicóloga, indo contra a ética da categoria, omitindo dados e acrescentando outros retirados de seus livros religiosos é no mínimo imoral.

Architect disse...

Nunca senti tanto nojo de uma pessoa quanto dessa mulher ao ler isso.

Felipe Stephan Lisboa disse...

Excelente análise Alessandro. Em meu blog já comentei também sobre o caso Marisa Lobo. Segue os links: http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2011/11/psicologia-crista-o-eterno-retorno.html e http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2011/11/comunidades-terapeuticas-os-novos.html

Anônimo disse...

Alessandro, segue a declaração de Marisa Lobo entregue ao CRP 8ª região hoje, dia 24 de Fevereiro de 2012 http://marisalobo.blogspot.com/2012/02/declaracao-da-psicologa-marisa.html?spref=tw

Imaginei que ela fosse colocar a constituição federal no meio... Enquanto ciência e profissão, a Psicologia não deve deixar ideologias e crenças no meio. Daqui a pouco vai ter gente pedindo ao CRM pra ao invés de usar anestesia, usar uma reza. Eu quero anestesia e não reza, inferno!
Dá no mesmo que essa senhora Marisa Lobo chegar à delegacia registrar um B.O de roubo de seu veículo e o delegado falar "vamos rezar pra achar seu carro", ao invés de usar a perícia e a técnica para achá-lo. ABSURDO e to achando que o CRP 8 vai abrir as pernas.

João Bastos disse...

Matéria muito bem escrita e fundamentada apesar das generalizações a respeito das terapias alternativas.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

O que eu disse das Terapias Alternativas foi que

a) elas não são reconhecidas pelo Conselho, e

b) que se baseiam num pastiche entre teoria e fé.

Essa generalização está correta, pois a regra se aplica a todas as terapias da classe "alternativa" (classe que agora ganha um novo item: a psicoterapia cristã).

OBS: No senso comum, generalizar é dizer algo errado sobre uma classe de coisas. Na lógica, generalizar é tão somente enunciar uma regra geral.

Tom Soares disse...

Parabéns, análise contundente.

Brener Alexandre disse...

Cara sua análise é muito pertinente. como filósofo e cristão compreendendo os desafios que desde o inicio do cristianismo se deu em conciliar a explicação dos fenomenos de modo racional com a revelação (em que consiste os dogmas da fé) entendo que há limites para o que a razão natural pode fazer dentro destes termos. E se para a Igreja católica a homossexualidade não tem ainda uma explicação e portanto não pode ser entendida como doença, mas se aproxima muito do que Freud concebeu como perversão e desvio da ordenação sexual. Como a Igreja se expressa no Catecismo nos paragrafos 2357 a 2359. E portanto a Igreja não propõe uma cura. E a castidade tbm bão pode ser considerada uma cura. Uma vez que no catolicismo todos os fiéis são chamados a castidade, por esta se tratar mais do que uma "coerção moral" como parte integrante da ética cristã que carrega elementos teleológicos à luz da escatologia de que os modelos religiosos estão revestidos. o fundamento moral da castidade no cristianismo é amadurecido pela filosofia grega. Os gregos antigos concebiam a liberdade como autocontrole e domínio sobre as paixões (autarquéia e enkratéia respectivamente) ambos compõe a sophrosyne (temperança) que enquanto comedimento educa o corpo para as demais virtudes morais: coragem, justiça etc. Usar a biblia que embora na tradição cristã seja considerado um livro sagrado e revelado para práticas psicoterapeuticas é na verdade fideísmo e fundamentalismo, são condenaveis tanto teologicamente como filosóficamente pq tais modelos radicais não promove a vida plena que a religião cristã prega. Aliás uma psicoterapia cristã se pautaria pelo acolhimento e ajudaria a pessoa a aceitar e lidar com a sua orientação sexual em todos os setores da sua vida, principalmente diante de uma sociedade hipócrita e preconceituosa. Achei o seu texto fantástico sobre o assunto. e muito bem fundamentado. abraço.

Anônimo disse...

por acaso, alguém tem dúvida que o homossexualismo é pecado?

Alessandro Vieira dos Reis disse...

A ideia de que algo é pecado depende da pessoa ter fé religiosa que pecado existe

Anônimo disse...

"Marisa Lobo não está apenas professando sua fé, como diz. Está fazendo uso de seu titulo de psicóloga para isso, ao ponto de defender que o que faz é “Psicologia Cristã”. Em outras palavras, disfarça uma ideologia religiosa de discurso científico.(...)mediante as regras do Código de Ética da profissão, fazer propaganda de si mesmo como “psicólogo cristão” é tão anti-ético quanto declarar-se “psicólogo Ptista”, “psicólogo kardecista”, “psicólogo Liberal”, etc. Em resumo: a Psicologia não pode ser usada para legitimar e pretensamente endossar ideologias políticas, religiosas, filosóficas de seu profissional."

Emerson Luís disse...

Antes de comentar, NÃO sou evangélico nem GLS. Parece haver extrapolações dos dois lados.

Seria muito bom se a psicologia levasse mais racionalidade e senso de responsabilidade aos grupos religiosos, pois a maioria deles está precisando urgente. Infelizmente, eles preferem fazer um self-service da psicologia.

Como todo cidadão, um psicólogo pode ter suas convicções pessoais sobre qualquer assunto e divulgá-las. Mas deve separar bem (1) as ocasiões em que fala como representante da psicologia (2) das ocasiões em que defende suas ideias particulares.

Por outro lado, parece ser um caso de "dois pesos e duas medidas". Há muitos que se autodenominam "psicólogos budistas", "psicólogos espíritas", "psicólogos marxistas", "psicólogos feministas", etc. e não há alarde. Por que essa diferença?

O Felipe Lisboa (que comentou acima) escreveu na postagem que que linkou: "E o fato é que o CFP é dominado pelos sócio-históricos, psicólogos marxistas de esquerda. E isto é um elogio!"

Você mesmo, Alessandro, fez diversas postagens sobre ateísmo e budismo neste blog, que é para divulgar o behaviorismo. Em menor grau, é o mesmo que a Marisa Lobo fez.

Direitos e deveres iguais!

Alessandro Vieira dos Reis disse...

só q eu não sou psicologo

andre madeiro disse...

Caro Alessandro,

Parabenizo seu blog inclusive este txt sobre o trabalho da psicologa Marisa Lobo. Quero citar um livro interessante de 2 pesquisadores da sexualidade humana, o qual tenho admiração, que trata sobre a homossexualidade: WILLIAM H. MASTERS & VIRGINIA E. JOHNSON - HOMOSSEXUALIDADE EM PERSPECTIVA.1979. LIVRARIA EDITORA ARTES MÉDICAS LTDA. É um livro que trata os comportamentos homossexuais e ambissexuais por estes 2 cientistas. Eles são behavioristas. Outro livro que trata homossexualidade e cristianismo que encontrei na net penso que merece ser lido e quem sabe discutido aqui. é uma sugestao minha:
http://www.gruposummus.com.br/detalhes_livro.php?produto_id=666

O Que a Bíblia Realmente Diz Sobre a Homossexualidade de Daniel A. Helminak. Para finalizar meu txt eu aprendi com um professor maravilhoso e psicologo behavirista, antes de tornar-se profissional, quando ele falou sobre pessoas que procuram uma psicoterapia para reverter a homossexualidade: segundo ele, pode ser viável a reversao da homossexualidade QUANDO o(a) cliente(a) apresenta um sofrimento psíquico contínuo, a longo prazo, com ela mesma, e que deseja viver uma vida heterossexual. MMAASS que seja BEMM analisado esta pessoa, sua história de vida familiar, sexual, sobre relacionamentos, suas experiencias emocionais, sexuais, afetivas, o que ela aprendeu sobre sexo, sexualidade, sua educacao, qual a sua cultura em que vive,etc. Quero dizer em outras palavras, que para isto ser realizado, penso que a pessoa deve nao apresentar uma pressão de familiares, influencia religiosa muito forte que abomina a homossexualidade, assim como talvez a pressao de vizinhos, más experiencias sexuais, afetivas.

Romeu S disse...

Queridos quero dizer a todos que expreçaram suas opiniões,demonstrando sabedoria fluencia em termos tecnicos, que jamai vi tamanha demonstração de intolerancia e desrrespeito ,com a profissional e com todos os cristãos.
O homossexualismo não é natural.Pois visto que tudo o que é
natural se reproduz temos a base científica para afirmar em GN a biblia diz macho e femea os criou temos a base crista.
É preciso parar com esta manifestações de liberdade ,com o velho pretexto da homofobia para não surgir a heterofobia .
Queridos a inveja alem de feia tambem é pecado deixem as pessoas trabalhar usando seus metodos que com certeza esta ajudando muita gente do contrario ninguem se impotariam ,Afinal quem faz e criticado por ser capaz e quem não é capaz não faz nada so critica
E O PIOR ACREDITAM SER SÀBIOS???

Robson disse...

#CuraDoFanatismoReligioso Lutemos em prol da cura da imbecilização idiotizante promovida pela lavagem cerebral religiosa.